Guinga

Delírio Carioca (1993)

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1. Delírio Carioca
(Guinga - Aldir Blanc)

No Rio: mar.
Ouço Netuno assoviar
um Gershwin Clara Nunes
qua faz vibrar feito flauta
os túneis.

Um cisco no olho azul da Lagoa:
sozinho,
Macunaíma anda de pedalinho.

No Rio-Festa,
Porgy and Bess
tapeiam mais um turista argentino
e o chope é fino no azul cristalino.

E vem num avião um Jobim azulão
e a chuva é flecha em São Sebastião...

A clave rosa da manhã atinge um balão.
Maravimentirosa:
Dá pra pegar jacaré no arrastão.


Djavan: voz
Guinga: violão
Quarteto de Cordas:
- 1º e 2º violinos: Bernardo Bessler
- Viola: Marie-Christine Springel
- Cello: Jacques Morelenbaum
Quinteto Villa-Lobos:
- flauta: Kátia Pierre da Costa
- oboé: Luís Carlos Justi
- clarinete: Paulo Sérgio Santos
- trompa: Philip Doile
- fagote: Elione Alves de Medeiros
Chiquinho de Moraes: arranjo e regência

*Djavan, artista gentilmente cedido por Sony Music Enterteinment (Brasil)


2. Saci
(Guinga - Paulo César Pinheiro)

Quem vem vindo ali
É um preto retinto e anda nu
Boné cobrindo o pixaim
E pitando um caximbo de bambu
Vem me acudir
Acho que ouvi
Seu assovio
Fiquei até
Com o cabelo em pé
Me deu arrepio
Frio

Quem vem vindo ali
Tá capengando numa perna só
Só pode ser coisa ruim
Como bem já dizia minha avó
Diz que ele vem
Montado num
Rodamoinho
Já sem quem é
Já vi seu boné
Surgir no caminho

Quando ele vê
Que eu me benzi
E que eu me arredo
Cruz-credo
Solta uma gargalhada
Some na estrada
Era o saci...



Guinga: violão
Lula Galvão: guitarra
Jorge Helder: baixo
Paulo Sergio Santos: clarinete, sax alto
Sergio de Jesus: trombone
João Cortez: bateria


3. Par ou ímpar
(Guinga - Aldir Blanc)

Contar pra vocês
o torturador que tem soco inglês
mudar não mudou...

Lá em Xerém,
Vilmar, o pára-militar, bate bem
numa pelada fuderosa
onde não tem pra ninguém
Ele só chama adversário
de meu anjo e neném
mas quando baixa o santo ruim
é pé na cara
e, olha bem,
lambe o bigode assim PC
dá de madeira em você
por tudo que cê disse
e que não disse
No fim, pede uma pizza de alicce
diz que tá lendo Frederico Nietzche.

Conta que é torturador
não é nada pessoal
se convocado outra vez
volta e me mete o pau, uai!
Aí, eu jogo pinga na língua
que imita a ginca
do Nelso da Capitinga
que xinga
mas a catinga
diz que eu me sujei.


Guinga: voz e violão
Marcos Suzano: percussão
Nico Assumpção: baixo
Chiquito Braga: guitarra
Bidinho: trompete
Paulinho trompete: trompete
Serginho trombone: trombone e arranjo
Zé Carlos: sax tenor
Leo Gandelman: sax barítono


4. Passarinhadeira
(Guinga - Paulo César Pinheiro)

Todo meio-dia
no batente da cancela
Pousa um tico-tico
e eu por ela fico à espera
Ela traz a flor da mocidade dentro dela
Feito o tico-tico
traz no bico a primavera
Ô, o passarinho cantador
Avoou, anunciando o meu amor

Toda meia-noite
num cantinho da janela
Dorme um passarinho
no seu ninho de quimera
Quem me dera a sua rosa branca de donzela
Por detrás da tranca da janela,
ai quem me dera
Ô, o passarinho sonhador
Despertou denunciando a minha dor

E acorda toda a passarada
Revoando na roseira
Da moça passarinhadeira

Salve o bem-te-vi
Salve o sanhaço, o coleirinho, o colibri
O curió
Rolinha e chororó

Sabiá
Vai, diz pra ela todo o meu penar
E diz pra ela que eu vivo a esperar



Guinga: voz e violão
Fátima Guedes: voz
Chiquito Braga: violão
Nico Assumpção: baixo acústico
Zé Nogueira: sax soprano
Bernardo Bessler: violinos
Marie-Christine Springuel: viola
Jacques Morelembaum: violoncelo
Leandro Braga: arranjo e regência


5. Nítido e obscuro
(Guinga - Aldir Blanc)

A porcelana e o alabastro
Na pele que eu vou beijar
O escuro atrás do astro
Na boca que me afogar
Os veios que há no mármore
nos seios de Conceição
e desafeto e mais paixão
e porque sim e porque não
porque em você
o que me prende vive livre
como tudo que há no espelho
existe mas não tive
o bambual de ouro no dorso do tigre
o farol de Alexandria varando a solidão
Tu me incendeia e o ciúme entra na veia
a paixão ricocheteia
sobe inté o coração, e é bão!
pouco existente feito as perna da sereia
o cavalo de São Jorge, pisando a lua cheia
igual a chuva que há no fundo da baleia:
é tão pouca e formoseia o aguarão do mar
o amor vareia: o primeiro vira areia
o segundo sacaneia
mas o próximo é ilusão, que bão!
eu quando choro do olho sai meteoro e fogo
de cada poro um vulcão
é dor capaz de tombar a Via-Láctea no mar...
mas cabe dentro do olho
de um grilo no manguezal
eu quando rio faz frio de calafrio
as moça tem arrupio e terção
é alegria capaz de acovardar lobisome
e quando mais se espera dela
é aí que ela some
eu jogo truco, dou troco,
sou truculento e turrão
bato muito firme
danço jongo candongueiro
eu mato a cobra
e dispois exibo o pau pra nós dois:
tu se afeiçoa, faz carinho e me enleia
eu gosto mas me aperreia
o depender de mulher.
É sempre nítido e obscuro o que se quer!


Guinga: Voz e violão
Marcos Suzano: percussão
Paulo Sérgio Santos: clarinete


6. Canção do Lobisomem
(Guinga - Aldir Blanc)


Eu sou inquieto assim pra dar um corte
No elo entre a satisfação e a morte
Sou o ofício secreto do veneno
Correndo o amor...

- Deus o tenha!
Como disse Drummond (mais que epopéia)
"Essas flores num copo de geléia" me alucinam
"Essa lua, esse conhaque" e o mar
O que mais quero
Quando não espero é que Deus dá!

Minhas unhas em garras transformadas
Rasgam a roupa da virgem apavorada
Meia-noite, ao romper aquela porta
Que a separa de mim, ela tá morta!
Não dá pra entender

Essa angústia hoje é minha companheira,
Da conversa entre o príncipe e a caveira
Deduzi que a esperança é uma besteira
Corroendo o amor...

-Deus o tenha!
Entre amar e matar não sobra espaço
Quando a lâmina, rente ao meu abraço
E cristais de arsênico em meu beijo
Vão matar o que mais quero
Quando não espero é que Deus dá.

Nem a cobra coral, nem mesmo a naja
Dando o bote na prata que viaja
Numa bala entre a arma e o meu peito
Acho graça em desgraça
Dito e feito: sou meu matador.


Guinga: Voz e violão
Nico Assumpção: baixo acústico
Zé Nogueira: teclados


7. Catavento e girassol
(Guinga - Aldir Blanc)

Meu catavento tem dentro
O o que há do lado de fora do teu girassol.
Entre o escancaro e o contido,
E eu te pedi sustenido
E você riu bemol.
Você só pensa no espaço,
Eu exigi duração...
Eu sou um gato de subúrbio,
Você é litorânea.

Quando eu respeito os sinais,
Vejo você de patins vindo na contramão
Mas quando ataco de macho,
Você se faz de capacho
E e não quer confusão.
Nenhum dos dois se entrega.
Nós não ouvimos conselho:
E eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho.

Eu sou o Engenho de Dentro
E e você vive no vento do Arpoador.
Eu tenho um jeito arredio
E e você é expansiva - o inseto e a flor.
Um torce para Mia Farrow
E e o outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
Você dança havaiana.

Eu vou de tênis e jeans,
Encontro você demais:
Scarpin, soirée.
Quando o pau quebra na esquina,
Você ataca de fina
e me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha...
E ninguém mete o bedelho,
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho.

A paz é feita num motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada.
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos...

Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador,
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor.
Eu sinto muita saudade,
Você é contemporânea,
Eu penso em tudo quanto faço,
Você é tão espontânea.
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente,
Pra se completar.
Sei que um se afasta do outro,
No sufoco, somente pra se aproximar.
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho.


Guinga: voz e violão
Marcos Suzano: percussão
Nico Assumpção: baixo acústico
Zé Nogueira: teclados
Kátia Pierre da Costa: flauta
Luís Carlos Justi: oboé
Paulo Sérgio Santos: clarinete
Philip Doyle: trompa
Elione Alves de Medeiros: fagote
Chiquinho de Moraes: arranjo e regência


8. Viola variada
(Guinga - Aldir Blanc)

Minha viola hoje variou
E ateou fogo num igarapé
Feito a esfinge que também é
Garra de bicho com voz de muié.
Minha viola hoje lucinou
Viu esmeralda no verdor do escarro
Pra se apurar remisturou
Nelson Rodrigues com Manel de Barro

Ô, ô, dito assim
té parece que mangou de mim
Mas fui eu que pedi
Quem me ama tem que me afligir
E ela já convidou
Pra interpretar o Canto do Pajé
Um Curió com a faca no gogó,

Minha viola hoje variou
Em vez de corda tange um buscapé
Tá me pedindo
Que é pra tocar
Com mãos e dúvida de São Tomé
Minha viola hoje lucinou
Quem melhorar a sua antiga imagem
E convidou Turíbio Santos
Pra embelezar o andar da carruagem

Ô, ô . dá pra ver
Que a viola quer se promover
E ela diz, sem corar:
Quem me ama tem que me afagar
Mas agora inventou
Que um é pouco pra fazer bobagem
Com dois é bom,
Com trés é sacanagem.


Guinga: voz e violão
Chiquito Braga: violão e cavaquinho
Nico Assumpção: Baixo acústico


9. Choro pro Zé
(Guinga - Aldir Blanc)

Ai, por que choras, sax, tanto assim?
Conta pra mim o que te faz sofrer
Sou teu amigo, fiz por merecer
Sempre junto a ti
Sou o coração que faz você viver.

Ai, por que choras, sax, tanto assim?
Não há motivo pra se arrepender
Confia em mim
Que em minha vida
Alegrias, horas tristes e vazias
Passo com você.

A emoção que seduz
Solando um choro ou um blues
Me faz lembrar de outras noites muito azuis
Ouvindo o sax murmurar
Num baile ao luar
Frases pra sofisticada lady.

Existe um sax em mim
Chorando baixinho assim
E é tão bonito uma lágrima cantar
Um saxofone num bar
Me faz respirar
Sempre que o amor
Provoca em mim falta de ar.


Lúcia Helena: voz
Guinga: violão
Nico Assumpção: Baixo acústico
Paulo Malaguti: teclados
Zé Nogueira: sax soprano
Paulo Sérgio Santos: sax soprano


10. Age Maria
(Guinga - Aldir Blanc)

Age, Maria
Rasga teu véu de virgem
Tinge tuas mãos na vertigem do pecado
Maria, ateu ao teu lado
Lanço em teu ventre
A língua que te consagre
Milagre é ser pura em pela incontinência
Sacra é a vida da incoerência
Não quero ser carpinteiro
Pra esculpir a cruz que te imortalize:
Que não seja eu
Que ao te amar
Te martirize.


Guinga: voz
Leandro Braga: teclado


11. Baião de Lacan
(Guinga - Aldir Blanc)

A terra em transe franze
Racha pela beira
Feito cabaço de freira
Solta e lá vem um!
Mas o Brasil ainda batuca na ladeira
Bafo, Congo, Exu, Taieira
Mais Cacique e Olodum
Deus salve o budum!
Viva o murundum!
E é tuntum, tuntum!

Eu ouço muito elogio à barricada
Procuro as nossa por aqui
Não vejo nada
Só tomo arroto
E perdigoto no meu molho
Se tento ver mais longe
Tacam o dedo no meu olho
Quem fica na barreira
Pode até ficar roncolho

Um empresário quis
Que eu fosse a Massachutis
Oquêi, mu boy!
Cheguei pra arrebentar e putz!
Voltei sem calça e um quis me sequestrar...
Ao conferir o saldo,
No vermelho fui parar
Tô com João Ubaldo:
Chega dessa Calcutá.

Eu tô Amil por aí
Atleta do Juqueri
Um sócio a mais da Golden Cross
de carteirinha...
Tanto sofri nesse afã
Que um seguidor de Lacan
Diagnosticou stress
E me mandou pra roça descansar...

Eu fui pra Limeiro
E encontrei o Paul Simon lá
Tentando se proclamá
Gerente do mafuá...
Se os peão não chiá
O Boi Bumbá vai virar vaca.


Leila Pinheiro: voz
Guinga: violão
Chiquito Braga: violão e violão de 12 cordas
Marcos Suzano: percussão
Jacques Morelenbaum: violoncelo


12. Mise-en-scène
(Guinga - Aldir Blanc)

Yves Montand de manhã en passant
I'ennui, le neant, ai, haja Fimatosan...
Yves, livre, un bateau
Ivre d'amour, pour toujours desencarnou...
Oxalá voa lá dans le dance
Que um fã non sense sonhou
Tal notre dame ami pierrô
En letressence narrou
Com nuance constante
O jardim de ma tante
En flagrante, ah, o Aldir Blanc garfou.

A recherche d'humor sivulplé
Quesque Jacy Borró e Henriete se urinô
Delivrance é o que eu sou e bientôt
Alain Prost sujou, nega fulô.
Si Pelé desse um plá na Cresson,
ai, que frisson da cor...
Ici um charivari: Rosane cede vers jabor.
E se é Jane ou Simone de mon âme
todas são Notre Dâme:
les femmes sont tu Bardot.
Tom Jobim já falou:
da fenêtre vê-se o Redentor
- ai, me matar por amor.

Bota mais um Cointreau que hoje eu tô
Depardieu de batom e ce si bon...
Mais, helàs. se eu tiver, très malheur,
mais um revés, mulher,
que eu brinque com a Demonjô
nas onze e meia do Jô
et d'aprés en mon rêve
que eu tenha o prazer de rever
Yves Montain autrefois amanhã.


Guinga: Violão e voz
Acordeon: Orlando Silveira
Guitarra: Chiquito Braga
Piano e Arranjo: Leandro Braga


13. Henriquieto
(Guinga / Aldir Blanc)

Guinga: violão
Chiquito Braga: cavaquinho
Marcos Suzano: percussão


14. Visão de cego
(Guinga- Aldir Blanc)

Um riso escancarado
de branco parafina
na boca tangerina...

O cego me fez
ver mil Brasis de uma só vez
nas fitas das Folias de Reis
ô cego alucinado:
barro marajoara
na colcha de retalho.

O cego me faz
ver mil Brasis e ainda mais
nas cianinhas dos carnavais
vou de liforme branco
na dorival jogada
na asa da jangada
eu vou por cima d'água,
a namorada do céu
sou herói de cordel.

O cego quer ver
alguém cantar em javanês
aboio triste no entardecer
cego surrealista:
um trem de celofone
trilhando um xilofone.

O cego me faz
ver nos vestidos dos varais
as prostituras louras do cais
o mar desde Arraiolo
na água pro monjolo,
o fio da navalha,
o couro da sandália,
a talhadeira e o cinzel:
cordas de um menestre.

Na carranca branca da barcaça
a garça da alma pousou...
com licor do guapo genipapo
um gaio papagaio eu sou...
De porre, num fogo romã de manhã
a saudade que eu trouxe
me faz ver Oxum de bermuda,
- me acuda! fazendo windsurf
na ponta de Itapoã,
no rio Maracanã...

E o cego me diz
Que ela é feliz
Com tantos Brasis:
um riso escancarado
de branco parafina
na boca tangerina.

Guinga: voz e violão
Boca Livre (Zé Renato, Fernando Gama, Lourenço Baeta e Maurício Maestro): vozes
Marcos Suzano: percussão
Zé Nogueira - teclados


15. Delírio Carioca (Instrumental)
(Guinga/Aldir Blanc)

Djavan: vocalise
Lula Galvão: guitarra
Jorge Helder: baixo
Carlos Malta: flautas
Paulo Sergio Santos: clarinetes
Jessé Sadoc: flugelhorn