Guinga

Simples e Absudo (1991)

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1) Canibaile
(Guinga e Aldir Blanc)

Quem-quém, andei cantando alegremente
E a cada pacto eu, o pato, era um frango de macumba.
Vinha os turista, viviam me alugando e ainda furavam meu zabumba.
Depois ligavam o rádio na FM dançando sobre a minha tumba.

Eu senti o drama do maneta:
Numa das mãos tomou Buscheta
E com a outra o que é que faço?
Virei palhaço no circo onde o calouro é o toureiro e é o touro
E ouve rádio ligado na FM enquanto toma pelo couro.

Araquiri, maracutaia...
Eu vou soltar a pomba-gira nessa praia! Bis

Mas que som, que saco, que mentira!
Falei com Jackson, lembramos Djanira,
Ele foi chamar Almira e isso vai continuar
Porque nunca se viu na cascavel
O guizo dela enguiçar.

Quem-quém...

Derramaro o gai do candiêro
-Nesse entevero, uso o côco e fico firme
Pode vir David Byrne
Porque o canibal sou eu:
No pau, descasco e como o tal rei momo
Que cagou no que é meu

O tempero é que é difícil,
Nem com fuzileiro e míssil...
Bedelho, ara! Mai que time é teu?

Voz: Leila Pinheiro
Arranjo, teclados e piano: Gilson Peranzzetta
Baixo: Sizão Machado
Bateria: Teo Lima
Violão: Victor Biglione


2) Sete estrelas
(Guinga e Aldir Blanc)

Eu sou a música da gente quando nua e crua
Escorro do nariz do pobre quando ele se assua
Sou Carolina na janela desejando a rua...
Com a solitude eu ando acompanhado
Cada virtude minha é pecado.

Varejeira come lixo feito creme chantili
E que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?

Sou o cachorro na viela cobiçando a lua
Sou o vermelho da donzela quando ela menstrua
O amassado na baixela feito com gazua...
A solitude eu quis por companheira
Toda mentira minha é verdadeira.

Trepadeira borda folha feito macramê:
É um mistério de se ver
E uma lição para se aprender
- pior que a morte é desviver.

Varejeira faz zoeira
No monturo do meu coração
Sete estrelas eu quisera
Sete vezes azuis sentinelas do meu violão.

Eu canto lágrima e o sal que o triste chora e sua
Eu sou a fome que há na santa quando ela jejua
O grito doido na garganta de uma cacatua...

Varejeira come lixo feito creme chantili
E que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?

Sou a paixão que faz seqüela quando pega e incrua
Eu sou o monstro da lagoa quando ele flutua
Se tu disser que é minha, eu digo que é a tua...

Trepadeira borda folha feito macramê:
É um mistério de se ver
E uma lição para se aprender
- pior que a morte é desviver.

Trepadeira tece esteira
Nas paredes do meu coração:
Sete estrelas benfazejas
Sete vezes irmãs sentinelas do meu violão.

Voz: Paulinho Malagutti, Eveline Hecker e Jackie Hecker
Violão: Guinga
Piano, teclados e arranjo: Paulinho Malagutti
Percussão: Armando Marçal


3) Lendas brasileiras
(Guinga e Aldir Blanc)

Dizem lendas que um labro morador
Viu num luzeiral a Saruí
Tendo ao lado dela
Um Par de França
Com a lança e o elmo em fogo de Santelmo.
Vendo o marador a meiga Saruí
Transformou-se em flor de cambuci
Tingida de aniz marijuana
Que azimbra as Malvinas das iguanas...
Ah, o arco-íris virou quebra-luz,
Tuma ardilou-se me penas de avestruz
E a minha vó batia pão-de-ló
No sino da igreja do Jarí
Ao ver casar Nhá-Pina e Raoni.

Peixe de água doce quis luceliçá
Junto ao seringal do Xapuri
Mas apareceu um Par de França
E disse a ele: "- Esse rendez-vous, cancele!"
E levou o peixe na Praça Paris
Pra estudar na Escola Patati
Onde, diz-se, um pato tucupi
Foi graduado Cisne do Itamaraty.
E aí, o peixe doce virou caximir,
E a onda trouxe um guinga e um Aldir
E foi então que o pobre enriqueceu valeu. Todas as lendas são assim:
Pra relembrar o que não aconteceu.

Voz: Chico Buarque
Violão: Guinga
Teclados: Gilson Peranzzetta
Programação de teclados: Zé Nogueira


4) Paixão descalça
(Guinga e Aldir Blanc)

Choro. A paixão é mansão
Onde eu vivo e não moro...
Rememoro a ferida
De querer toda a vida
Ida, volta.
A paixão só se amarra
Se a gente se solta:
A paixão é um bicho cruel
De asas feito gaivota.
Por nós dois eu não juro.
No futuro há pestanas
Em olhares escuros
Entre as venezianas
De um chalé de avenida...
Volta, ida.
A paixão se suicida
Se a razão se intromete:
A paixão é uma freira descalça
Em vison de vedete.
Juro, se é preciso:
Meu amor enlouquece
Ao tomar juízo.

Voz: Lúcia Helena
Arranjo, teclados: Rique Pantoja
Baixo Acústico: Sizão Machado
Bateria: Jurim Moreira
Sax Soprano: Zé Nogueira


5) Ramo de delírios
(Guinga e Aldir Blanc)

Juntei no violão pra você
O que não tenho mais sentido
E amarrei num buquê
Pra reaver o perdido.
A terra onde nasceu o Peter Pan
Fica entre a Vila e o Maracanã.

Bordei no aveludado céu
Por trás do Cruzeiro do Sul
Um transatlântico azul
E nele vou te levar
Pra um pôr-do-sol com o marinheiro Simbad,
Pra uma ciranda em Itamaracá.

Orquestra de juritis
Um lago em pleno Sinai
Dobrões e maravedis, ai, ai,
Um cafuné de meu pai, ai, ai,
Sereias num lupanar...

Roubei a Ingrid Bergman e fiz
O Humphrey Bogart decolar
De Casablanca e amiguei os dois no Jardim do Alá:
Se não der certo, um fica lá no Leblon
E o outro vai pra Jacarepaguá.

Peguei os sete anões por aí
E fomos juntos visitar,
Levando um ramo de flor,
A minha vó na UTI.
Ela me disse que a dor é o lugar
Onde o prazer sentou pra descansar.
Um iceberg lunar
Nas águas de Paquetá,
O gol de placa que eu fiz, ai, ai
Tocar com a Leila Diniz, ai, ai
- Última flor do buquê.

Guarda o meu ramo de delírios com você.

Voz: Claudio Nucci
Arranjo: Roberto Gnattali
Violão: Guinga
Cordas: Quarteto Bessler-Reis:
1º violino: Bernardo Bessler
2º violino: Michel Bessler
Viola: Marie-Christine Bessler
Violoncelo: Alceu Reis


6) Zen-vergonha
(Guinga e Aldir Blanc)

Sobre o coqueiral, lua
E um violão:
Pronta a cenografia de segunda mão
Da Zen-vergonha.
Vivo nessa praia:
Sou da baixada Fluminense e do Himalaia.
O infinito vale tudo ou nada:
A escopeta é o zenbudismo da Baixada.
O torniquete, o pau-de-arara e a saraivada
-Minha aura toma e dá porrada
Me finjo de Alan Delão mas na realidade
Nessa terra é tudo Zé Trindade.
Lente de papel,
Última sessão:
Vermelho e verde na terceira dimensão
E um trapalhão
Que é Dedé, Mussum
Ou Zacaria entrando em fria
Gira e cai
No caldeirão
Peixe, camarão,
Dendê, farinha
Que ta podre mas ta bão.
Hermeto é mito! É guerra e paz. Qual é a realidade
Se há sempre um sonho que me invade?
O meu pirão é transreal,
Por isso não desanda:
Canguru é um bicho com varanda.
Zen-vergonha é assim, assim:
Muito curumim vede pó e cola,
Raspa, raspa e o camarin
Fica cheio assim de tupiniquim,

Aqui a Yoko rala côco e joga ioiô,
O Lennon veste um terno branco e é gigolô
E o último há de ser o primeiro:
A zonza da cigarra,
O ôco do cajueiro
E a revolta ainda maior:
Quem bebeu e bebe o meu suor?

Voz: Beth Bruno
Arranjo, teclados e sax-soprano: Zé Nogueira
Baixo: Sizão Machado
Percussão: Marcos Suzano


7) Rio-Orleans
(Guinga e Aldir Blanc)

Tonto de gin
Vejo a Cinelândia piscar pra mim, sim
Bebo ao meu fim
No Amarelinho outra dose de ódio.

Eu sou assim
Um mocinho triste, de um mau cinema
I need um sax
Que me conte um tema
I want you, i want you...
Versos, maio
E essa dor não cede
Eu vejo, no Rex,
O amor que se perde
Na beira-mar mais gins
E o Rio é New Orleans
A alma canta um blues
'cause i love you
'cause i louve you

Longe um rádio
Vem no vento
Diz que i remember you

Arranjo, piano e voz: Ivan Lins
Teclados: Rique Pantoja
Baixo: Tavinho Fialho
Bateria: Alfredo Dias Gomes
Guitarra: Heitor T.P.


8) Simples e absurdo
(Guinga e Aldir Blanc)

O olho claro no cabelo cor da noite,
Riso branco feito açoite no olhar da paranóia.
Aqui é o cúmplice o que é simples e absurdo:
Esmeralda no veludo, onça negra com jibóia.

O que é quente se reúne ao que é gelado:
Dois vagalume agarrado na casaca do pingüim.
O que é sagrado vaticina o que é pecado:
Dois louva-deus afogado em piscina de nanquim.

De que se ri Diacuí?
Farsante finge um piti:
Gelo picado desmanchando dentro de um daiquiri...
Noturna sanguessuga suga o meu sossego pra si
Feito o morcego enxuga o suco-seiva do sapoti.

Quem vê a corça que há em ti
Não pressente o javali
Que espreita a vítima na íntima clareira ao luar.
Quem olha a jovem encantada tão bonita dançar
Não vê que a louca desgrenhada premedita matar.

Ai, prenda minha, verde-preta que me abate,
Andorinha no abacate, luto sobre o beija-flor...
Salve Rainha, chega dessa ladainha,
Que o amor que tu me tinha era pouco e se acabou.

Voz: Lucia Helena
Violão: Guinga


9) Quermesse
(Guinga e Aldir Blanc)

A espera desfeita
Semeia a colheita
De tudo que dá prejuízo
Eu vivo do erro, habito o desterro, o ermo é o meu paraíso.
Mas sou brasileiro
E o que é derradeiro
Tem gosto de um dia banal como a terça-feira
Bornal também guarda a estrela e o sol.
Meu Cristo é boêmio:
Se faz de abstêmio
Mas toma limão de manhã.
A viagem oferece
Seu beijo em quermesse
E é filha de Iansã.
São Pedro ouve rádio
E sonha com a quina,
Cobrando propina das chuvas.
O demo mergulha
Num mar de fagulhas
E diz que mulher, só as ruivas
Relâmpagos longos:
O cosmo rachado
É um prato quebrado
Por deus Pai. Nossa Senhora
Saiu pela porta afora no além...
O Deus do Deserto
Se acha um maestro
E quer tudo muito certim
Vem um querubim
Tocando flautin:
Por nós desafina no fim.

Voz: Zé Renato
Arranjo, piano, teclados, acordeon: Gilson Peranzzetta
Baixo: João Baptista
Bateria: Teo Lima
Percussão: Armando Marçal


10) Odalisca
(Guinga e Aldir Blanc)

Ela sonha ter mais do que podia ter,
Embriagada nas ondas do prazer.
A boca é vinho tinto,
As mãos são de absinto
E a cintura dela é a estrela por nascer.
Escultura moldada pelas mãos de Deus,
Sepultura dos que disseram adeus.
O rosto é uma pintura
E os homens são molduras vazias
Que ela pode preencher.

Por amor, a gente se transforma em São João Batista ao negar Salome.
De paixão, a gente faz proezas de malabarista
Fazendo até o que não quer.

Odalisca,
Artista da imaginação,
Tão promíscua no harém do coração...
A cada um que pede
Promete conceder
Mas recusa
Que a musa engana sem querer.


Voz: Be Happy (Ana Leuzinger, Kika Tristão, Marcio Lott, Chico Pupo)
Arranjos instrumental e vocal, piano e teclados: Luiz Avellar
Baixo: Ezio Filho
Bateria: Carlinhos Bala
Sax Alto: Marcelo Martins


11) Nem cais nem barco
(Guinga e Aldir Blanc)

O meu amor não é o cais,
Não é o barco.
É o arco da espuma
Que, desfeito, eu sou.
É tudo e coisa nenhuma,
Entre a proa e a bruma, o amor.
É a lembrança que enfuna
Velas na escuna que naufragou.
Não é no livro antigo o olor
De rosa que eu recebi.
Não é a ode, a loa,
Em Fernando Pessoa,
Mas é a nostalgia
Do que eu não li.
Não é camafeu,
Exposto na vitrine, em loja de penhor,
Mas é o que doeu
No peito feito um crime
Ao homem que o trocou.
É o olhar de um instante
Fixando o amante
Em plena traição
Que há em noivas degoladas no caramanchão.
É o vulto de mulher,
Há muito tempo morta,
Em frente à penteadeira.
É o vazio que a
Ausência dela ocupa ao ver sua cadeira.
A chuva dessa tarde trouxe o Tito Madi
E apenas eu ouvia...
Ah, o amor é estar no inferno ao som de Ave Maria!

Voz: Leni Andrade
Piano: Wagner Tiso
Sax Soprano: Zé Nogueira